A primeira coisa que muitas equipas associam a acessibilidade é cor. "Verifica o contraste no Stark." E é importante. Mas se o trabalho de acessibilidade acaba aí, é o equivalente a dizer que a saúde se resume a tomar vitaminas.

A acessibilidade tem várias camadas. Visual é só uma. As outras (auditiva, motora, cognitiva, neurodivergente) são igualmente reais e, em muitos casos, mais ignoradas. Este post percorre o que costumo verificar para além do contraste.

A camada visual (rapidamente)

Para fechar primeiro a parte mais conhecida:

Isto cobre a parte visual mais imediata. O resto é onde menos equipas chegam.

A camada auditiva

Áudio em produto está a crescer (notificações, voice UI, vídeos integrados). Cada som pede legendas, transcrição ou alternativa textual.

A camada motora

Pessoas com tremor, paralisia, lesões de pulso, ou que usam só uma mão precisam de interfaces que não exijam gestos finos.

A camada cognitiva

Aqui é onde me concentro mais ultimamente, porque é onde menos equipas pensam. Cognitivo abrange: dificuldades de atenção, memória de trabalho, processamento de linguagem, ansiedade, neurodivergências.

Práticas que funcionam:

Acessibilidade para dislexia (o caso contra-intuitivo)

Algo que aprendi na minha equipa, partilhado pela Rita, que tem dislexia: as práticas para dislexia, em alguns pontos, contradizem as práticas gerais de acessibilidade visual.

Acessibilidade geral pede contraste alto. Para dislexia, contraste mais baixo ajuda. Texto preto em fundo branco puro pode causar fadiga e dificultar leitura para quem tem dislexia. Um cinzento escuro em fundo creme ou off-white é, frequentemente, mais legível.

Outras práticas:

A solução em produto: oferecer um modo de leitura ou theme alternativo. Não substituir o default.

Leitores de ecrã: o que mais faz a diferença

Se o produto não funciona com VoiceOver, JAWS ou NVDA, está exclusivo. As práticas mais impactantes:

Testar é mais simples do que parece: Mac vem com VoiceOver embutido (Cmd+F5). Dez minutos a navegar o teu próprio produto com VoiceOver mostra mais do que uma audit do que qualquer checklist.

O que adicionar ao teu fluxo

Três acções concretas:

  1. Adiciona uma rubrica de acessibilidade ao design review, com pelo menos 5 linhas: contraste, tamanho de toque, alternativa não-visual, leitor de ecrã, simplicidade de linguagem.
  2. Faz um teste de VoiceOver mensal num flow do teu produto. Apenas tu, 10 minutos, sem audit formal. Vais encontrar coisas.
  3. Conversa com alguém que use tecnologia assistida. Mesmo que seja uma chamada curta. Vale mais do que ler 5 artigos.

Mais sobre o pano de fundo no guia Inclusão e Diversidade. Sobre o overlap entre acessibilidade e envelhecimento, ver The crucial need for designing for ageing. Para acessibilidade em workshops e research, ver Workshops acessíveis.